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A fome derruba muralhas - Theófilo Silva

Enviado por Theófilo Silva
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     Há dois dias venho tentando escrever meu artigo semanal – como sempre, indignado – mas não conseguia terminá-lo, em virtude da velocidade das mudanças que estão ocorrendo no Brasil no momento, e que deixava o texto, de antemão, envelhecido. É que, graças ao povo, a pressão das ruas e das redes, as manifestações estão surtindo efeito, e o governo federal, juntamente com o STF e o Congresso Nacional estão dando respostas rápidas às reivindicações do povo brasileiro.

     Não vou me referir à diminuição das tarifas de transportes coletivos,  já que acho isso secundário –  apesar da importância que tiveram para a rebelião – mas a série de medidas que o governo está tomando, juntamente com os outros dois poderes e que eu acho fundamentais para o país. Mas como atribuo, e sei que estou certo, as pesquisas confirmaram isso,  os problemas do Brasil à corrupção e a impunidade, o fato do poder legislativo ter transformado, ontem, o crime de corrupção em crime hediondo é sensacional. É uma medida que esse país clama desde que a República foi fundada em 1889. A Outra medida foi à decretação da prisão imediata do deputado federal por Rondônia, Natan Donadon, um político condenado com sentença transitada em julgado, mas que não era preso porque não havia vontade do STF.

     Esse deputado ladrão, que esvaziou os cofres da Assembleia Legislativa de Rondônia, vinha seguidamente conseguindo embargos fajutos, para não ser preso. Graças à ministra Carmen Lúcia, o tribunal expediu a sentença de prisão desse ladravaz, por 8 votos a 1. Trata-se de uma medida revolucionária: é a primeira vez que um deputado federal é preso no exercício do mandato.

     O único voto contrário à prisão foi daquele ministro de voz gutural e pomposa, de vocabulário ininteligível, que,  ao falar  soa como um deus descendo do Olimpo, Marco Aurélio Mello – ele foi  nomeado por seu primo, o defenestrado Presidente Collor de Mello. Não há novidade alguma nisso, esse juiz, Marco Mello, sempre tomou decisões que demonstram um profundo desprezo pelo povo, e anseios da sociedade brasileira. É contra juízes como Marco Mello que a sociedade nas ruas luta para se ver livre.

     Os poderes constituídos do Brasil estão vendo agora qual é o preço pago pela impunidade. O que estamos assistindo é uma rebelião, o povo nas ruas dizendo que não suporta ver o procurador de justiça Demóstenes Torres (foi generosamente aposentado com um salário de 30 mil reais mensais) tomando garrafas de vinho de doze mil reais e o criminoso Carlinhos Cachoeira controlando o governo de Goiás, soltos – por um juiz defensor de corruptos. De ver Renan Calheiros ser chutado da presidência do senado, e depois, como um sapo,  ser reconduzido ao cargo, muito embora um petição de dois milhões de brasileiros pedissem ao Congresso que não deixassem ele voltar.

     Centenas de anos convivendo com um Estado que não prende corruptos, o povo cansou de fazer petições, abaixo-assinados e encaminhá-los ao Congresso Nacional para providências e vê-las jogadas às traças. Eles mostraram “que têm braços” – já explico por que estou dizendo isso – e não somente voz. A impunidade quebra o contrato, o pacto social. O desperdício, o descaso com obras públicas é fruto da lentidão e leniência da justiça, que leva anos, dezenas deles para dirimir uma simples questão, nesse conluio de legisladores e juízes. A burocracia estatal não permite que as coisas andem numa velocidade que atenda as necessidades do tempo e da sociedade.

     Essas manifestações de rua lembraram-me uma deliciosa passagem na peça Coriolano, de Shakespeare, uma entre as várias cenas de rebeliões populares em sua obra. Aos gritos de “A fome arrebenta muralhas” a multidão faminta, enfurecida e disposta a tudo, toma as ruas de Roma. Menenius, um dos poucos senadores respeitados pelo povo é escalado pelos seus pares para ir ao encontro dos revoltosos para tentar sustar a rebelião. Trava-se o seguinte diálogo:

Menenius - “Que trabalho ocupa agora suas mãos, meus compatriotas? Para onde vão com paus e bastões? Que aconteceu, falem,  por favor?”

Cidadão: “Nosso projeto não é desconhecido do senado. Há quinze dias já sabem por aviso secreto, o que pretendemos fazer e que vamos agora mostrar-lhes por meio de ações. Dizem os senadores que solicitantes pobres têm a voz forte; ficarão sabendo agora que temos também braços fortes”.

Menenius – “Como, meus bons senhores, meus amigos, meus honestos vizinhos, querem causar sua própria ruína?”

Cidadão – Não queremos senhor, já estamos arruinados”.

     Pois é, o povo arruinado, muito embora estivéssemos vivendo um bom momento da economia brasileira e todos os índices apontassem melhoras na qualidade de vida do brasileiro, exigiu mais, exigiu justiça. Querem os ladrões de gravata na cadeia. Assim não faltará dinheiro para estradas, escolas, hospitais, pontes, ônibus, trens, metrôs e outras melhorias.

     Lembrando que , no artigo interior eu falei da importância da prisão de Natan Donadon. Graças ao povo nas ruas o STF atendeu.

     Que venham as outras medidas!

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