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Sociedade de consumo ignora o valor da tristeza

Enviado por Gilberto Godoy
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   Wilson Ferreira via cinegnose.blogspot.com

   Neste momento a sociedade reúne todo um arsenal médico-terapêutico-psicológico-farmacêutico para extirpar o mal que atormenta milhares de almas: a melancolia. O professor de literatura inglesa da Wake Forest University Erik Wilson vê na obsessão pela busca da felicidade na atual sociedade de consumo como uma desconsideração medrosa do valor da tristeza: a agitação da alma que se transforma no impulso vital de toda cultura próspera. Se o Prozac existisse desde séculos atrás, certamente não veríamos hoje muitas obras primas nos campos da literatura, pintura e ciências. Esse é o tema do recente livro de Wilson “Against Happiness: in praise of melancholy”

     Já discutíamos a possibilidade da existência de um efeito político na banalização de antidepressivos: a criação de um novo conservadorismo decorrente de um efeito colateral do consumo banalizado desses medicamentos, o chamado “efeito zumbi”. Tal efeito poderia ser descrito como um mix de euforia, apatia e perda de senso crítico. Em síntese, embotamento e uma visão “suavizada” ou abrandada dos fatos da vida (sejam políticos ou pessoais).

    Oportunamente li o livro “Against Happiness: in praise of melancholy” (“Contra a Felicidade: em defesa da melancolia”) do professor de literatura inglesa da Universidade Wake Forest da Carolina no Norte – EUA, Erik Wilson. O autor é bem conhecido por esse blog a partir do seu livro “Secret Cinema: gnostic vision in film” onde ele descreve as conexões entre as narrativas míticas do gnosticismo clássico e a produção cinematográfica hollywoodiana atual.

     Profundo conhecedor do gnosticismo na literatura romântica dos séculos XVIII e XIX, Wilson nos oferece uma abordagem sobre a melancolia como uma força vital de qualquer cultura próspera, literatura, pintura, música, inovação, ou seja, a força que subjaz a toda ideia original. O problema é que a nossa cultura, baseada no vício da busca a todo custo da felicidade, alimenta uma desconsideração medrosa do valor da tristeza. Neste exato momento, toda a cultura midiática e indústria farmacêutica empreendem uma verdadeira repressão da melancolia, da tristeza e demais agitações da alma para expulsá-las do sistema como fossem meramente lamentos de um paciente neurótico.

     Wilson evita cair no romântico elogio da loucura. Ele distingue a depressão clínica (“muitas almas perdidas requerem medicação para não matarem-se ou para não causar dano aos seus entes queridos”) da melancolia. Porém, há toda uma cultura que leva um melancólico a tomar antidepressivos para que a sua carranca possa se transformar no sorridente rosto afável, agradável e conformado com a realidade.

     “Uma linha muito delgada separa o que eu chamo de melancolia e o que a sociedade chama de depresssão. Para mim, o que as separa é o grau de atividade. Ambas são formas de tristeza mais ou menos crônica que conduz a um incomodo duradouro com o estado de coisas, sentimentos persistentes de que, tal como está, o mundo não está bem e é um lugar de sofrimento, estupidez e mal. Frente a esse incomodo, a depressão causa apatia, uma letargia que se aproxima da paralisia (...). Pelo contrário, a melancolia gera uma relação com a mesma ansiedade um sentimento profundo, uma turbulência no coração que desemboca no questionamento ativo do presente, um desejo perpétuo por criar novas formas de ser e de ver” (WILSON, Erik. Against Happiness, New York: Sarah Crichton Books, 2008,p. 8.).

     Sabendo que o autor é um grande conhecedor das narrativas míticas do Gnosticismo clássico, não é por acaso que encontramos na sua abordagem sobre a melancolia ecos do pensamento do pensador gnóstico Mani (viveu no Irã no século III DC e sua região floresceu por séculos tornando-se a principal fonte de transmissão da tradição gnóstica). Para Mani, a melancolia era, por assim dizer, um estado alterado de consciência que propiciaria a gnose. Mani propunha uma melancolia ativa a partir de um desdém de tudo ao redor, principalmente das formas de consolação como o Cristianismo e o hedonismo.

     Melancolia e “Polaridade Vital”

     O livro “Contra a Felicidade” parte de dois pressupostos. Primeiro, a mídia nos passa duas mensagens contraditórias: de um lado, nos informa diariamente que o mundo está à beira do abismo (ameaças ecológicas, apocalipse climático, perigo nuclear, violência etc.) e, ao mesmo tempo, nos diz que temos que ser felizes. Wilson aponta para uma pesquisa realizada pela Pew Research Center onde os números indicam que 85% dos norte-americanos são muito felizes ou, pelo menos, felizes. Como pode haver tanta gente feliz com a enorme quantidade de problemas que aflige o planeta?

     Está claro que o tipo de felicidade que está sendo incentivada é a da feliz adaptação: indivíduos suaves e embotados em sua capacidade crítica e de indignação.

     O segundo pressuposto é simples e direto: quem disse que devemos ser felizes? Em qual passagem da Bíblia ou da Constituição se diz isso? A questão é que o tipo de felicidade promovida pela nossa cultura alimenta uma ignorância sobre uma “polaridade vital” entre agonia e êxtase, abatimento e efervecência. O que Wilson entende por “polaridade vital” é mais um eco do pensamento gnóstico de Mani: o cosmos é uma atribulada dança de opostos – Bem e Mal, Euforia e Tristeza, gozo e melancolia e assim por diante.

     É o chamado “pensamento maniqueísta” do gnosticismo clássico: a dinâmica do cosmos é comandada pela luta entre o Bem e o Mal, “opostos” que jamais chegarão a uma síntese dialética, mas que, na verdade, constituem em duas entidades reversíveis que resultam em um único movimento. Uma entidade ao mesmo tempo tensa e complementar. Polaridades que, simultaneamente, manifestam-se como entidades reversíveis que criam a tensão vital que dá o vir-a-ser do cosmos.

     Wilson nos dá dois exemplos de manifestação dessa polaridade vital: o nascimento e a morte. Ao testemunharmos o nascimento de uma criança nosso rosto sorridente é banhado por lágrimas. Ao mesmo tempo em que celebramos o estalo de uma vida nova, também é um lamento da trágica queda do recém-nascido na dor desse mundo. Somos invadidos por esses sentimentos contraditórios e, dessa maneira, nos damos conta de que os momentos mais intensos da vida são onde melancolia e gozo e euforia e tristeza juntos produzem a “valsa sobressaltada do cosmos”.

     Em um funeral também sentimos uma estranha mescla de medo e esperança, tristeza e alegria. Todos estão tristes ao testemunhar mais um que está pronto para regressar à terra fria. Porém, recordamos que estamos vivos e nos alegramos por essa boa sorte. Não é à toa que os funerais negros de New Orleans  são acompanhados por bandas de jazz que alegremente tocam acompanhando o velório (o “jazz funeral” cujas origens estão em práticas espirituais africanas e nas tradições marciais francesas e espanholas).

     O universo congrega supreendentes antinomias. Ao apreendermos essa polaridade cósmica, sentimos o atrito desses sentimentos paradoxalmente opostos e encontramos a paz e a graça: de que nossas agitadas unidades estão em perfeita sincronia com o caótico todo.

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