Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns minutos...

 

Elegância - Leticia Constant

Enviado por Gilberto Godoy
elegancia---leticia-constant

     Foi num fim de manhã deste outono, lembro que ventava muito, pois me marcou o movimento dos cabelos estapeados das pessoas caminhando encolhidas pela Rue Saint-Honoré em Paris. Empurradas pelos compromissos, pisavam sem notar as folhas inconsoláveis com a separação de suas árvores do Jardin des Tuileries, há alguns metros dali. Cachecóis voando para trás, como se quisessem agarrar alguma coisa que passou. Sem conseguir.

     Eu também andava sobre as folhas, beijando ar gelado, lambendo vitrines com os olhos, quando vi aquela mulher parada quase em frente à entrada da Colette.

     O casaco de bainhas e punhos esfarrapados me recordou uma coleção que o estilista John Galliano criou para a Dior, em 2000, e provocou grande escândalo por ter sido inspirada nos trajes dos mendigos de Paris. Tantos anos depois, o paradoxo pousou ali, na minha frente, a saia longa não cobrindo os pés com botas de número maior, de que cor impossível saber.

     Ao contrário das mãos da maioria dos passantes, enluvadas ou protegidas dentro dos bolsos, as dela estavam nuas. Ao contrário das mãos da maioria dos pedintes, ela tinha não uma, mas as duas estendidas, as palmas levemente abertas, como se estivesse em oração. Uma Nossa Senhora com frio.

     Do outro lado da calçada, sem sentimentos despertos de piedade ou compaixão, eu admirava seus olhos debruçados em um horizonte imaginário, miseravelmente serenos. A imagem da mulher atravessava meu eu como uma longa lança, provocando mais tremores do que os graus abaixo de zero do fim daquela manhã de outono.

     Desses mistérios interiores... Eu me senti ligada a ela e desejei nosso reflexo na vitrine da Colette.

     Atravessei a rua e me aproximei, colocando uma nota alta entre os dedos finos. O olhar agradecido não veio, assim como não veio nenhum sorriso, nenhum “Merci, madame”, nenhuma expressão de gratidão, não veio nada além do gesto delicado de guardar o dinheiro no bolso e voltar a esperar a próxima esmola, o olhar sempre debruçado no horizonte imaginário entre as lojas mais luxuosas de Paris.

     Mil revistas Vogue não conseguiriam estampar aquele instante. Nada é mais elegante do que a dignidade.

 

     Jornalista, escritora e cantora, Leticia Constant nasceu em São Paulo e vive há 20 anos, em Paris. É dela a autoria da crônica “Elegância”, uma reflexão acidental de seu dia-a-dia parisiense que iniciou ao caminhar sobre o tapete dourado das folhas outonais no Jardin des Tuileries e foi concluída diante da vitrine ultra trendy da Colette, na Rue Saint-Honoré. ta

     Fonte: http://www.taste.com.br/destinos/news/item/255-elegancia.html
 

Comentários

Comente aqui este post!
Clique aqui!

 

Também recomendo

  •    Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões , é uma alegria! Entretanto...   "   (continua)


  •    Sou, com frequencia, chamado a fazer palestras para turmas de formandos. Orgulha-me poder orientar jovens em seus primeiros passos profissionais. Há uma palestra que alguns podem conhecer já pela web, mas queria compartilhar seus fundamentos com os leitores da coluna.   (continua)


  •     Texto de Marina Colasanti na voz de Juca de Oliveira.
       "Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.   (continua)


  •    “E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval, uma pessoa se perde da outra, procura-a...   (continua)


  •    Você está feliz com o que você ganha? Ou você está feliz, porque você ganha mais do que seu vizinho? Pesquisadores da Universidade de Warwick e Cardiff, ambas da Grã-Bretanha, descobriram que o dinheiro só traz felicidade se ao mesmo tempo...   (continua)


  •    A lista de mortos da gente vai aumentando com o tempo. Quando eu era pequena não tinha noção desse morre e nasce. Mesmo porque ninguém meu morria. Tudo tinha um quê tão definido de eternidade, tudo durava tanto e a vida não faltava; a vida era pontual como...   (continua)


  •    Você já parou para pensar no autoengano? Todos nós estamos familiarizados, de uma forma ou de outra, com as mentiras. Alguns são mais corajosos e admitem que são capazes de mentir, outros não admitem essa fraqueza.   (continua)


  •    Nós homens nos caracterizamos por ser o sexo forte, embora muitas vezes caiamos por debilidade. Um dia, minha irmã chorava em sua casa… Com muita saudade, observei que meu pai chegou perto dela e perguntou o motivo de sua tristeza.   (continua)


Copyright 2011-2026
Todos os direitos reservados

Até o momento,  1 visitas.
Desenvolvimento: Criação de Sites em Brasília