Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns minutos...

 

Metáforas, Brasil e futebol - Roberto DaMatta

Enviado por Gilberto Godoy
metaforas--brasil-e-futebol---roberto-damatta

     O título parece complicado, mas não é. Metáforas são figuras de linguagem que substituem uma coisa por outra. São indispensáveis na expressão da vida. Por exemplo: o coração, que é um órgão do corpo humano passível de cirurgia, palpitação e substituição, é uma metáfora do amor — essa "coisa" também cheia de truques que escapa dos procedimentos objetivos e tem regras que, como dizia o grande Pascal. 

      Há, li outro dia no "The New York Times", um debate se as carruagens devem ser mantidas ou não em Manhattan. Como toda metáfora, elas são um contrassenso. Pois quem colocaria a "mão no fogo pelo governo" que recebeu, mas não se livra, dessa onda de pobreza intelectual, de ausência de percepção institucional e sociológica que abunda hoje no Brasil? E quem seria capaz de defender carruagens neste mundo contemporâneo onde existe um índice (e logo um marco regulatório) para a felicidade e para a atividade sexual?

     Carruagens num mundo de trens, aviões e automóveis são algo tão anacrônico, tanto quanto as "liturgias", como diz Sarney, que, no Brasil, gastamos para manter certos cargos e estruturas governamentais configuradas pela nossa vocação aristocrática. Mas — como toda metáfora — as carruagens não são meios para fins, são — como os salários e as sinecuras dos nossos governantes — fins para meios. Elas ritualizam, tal como fazem os exageros e as anedotas, o modo de viajar não dando a mínima para o elo direto ou racional entre meios e fins. Por isso você pega um carro quando está com pressa e entra numa carruagem em Manhattan quando quer criar um clima romântico e viver um gozo que lhe confirma o sofrimento no qual você estava engolfado.

     Vamos de bonde?
     Não, vamos a pé...

     Eu, esse vosso cronista confuso, misto de acadêmico marginal e escritor bastardo, produzi exatamente essa resposta em algum dia de 1951, em Juiz de Fora, quando fui buscar a Zelinha no ensaio do teatro do colégio em que ela estudava. Era um dia chuvoso e nós andamos da Rua Halfeld até o Alto dos Passos debaixo de um mesmo guarda-chuva, o que me permitia ficar fisicamente próximo do ser idolatrado.

     Preferi o caminhar (que é velho e lento) ao bonde (que, naqueles tempos antigos, era veloz e confortável). Mas, em compensação o "passeio" sinônimo do andar sem rumo — metáfora do andar lado a lado —, essa raridade, esse caminhar junto (metafórico do peregrinar, do pertencer e do estar com o outro), subvertia os meios e os fins como a melhor prova de que estava apaixonado, tal como eu hoje enxergo que são essas substituições que nos tornam humanos. Só nós podemos realizá-las. Nem os anjos (que são perfeitos, mas não se reproduzem) nem animais (que são imperfeitos e se reproduzem além da conta) sabem o que é esse pertencer sofrido que vem de dentro para fora — como exprime o coração humano que está dentro e, ao mesmo tempo fora de nós.

     Entendem-se, então, as carruagens e as liturgias de Sarney. Elas não estão ali para transportar ou ajudar a servir melhor o povo e a sociedade, mas para criar um clima romântico e para garantir uma opulência que beira ao desperdício — esse mal do Brasil. Num caso, a lentidão que faz da disciplina amorosa e romântica; no outro, a transformação do republicano num reino de Jambon onde poucos comem muito sem fazer nada e muitos comem pouco fazendo tudo.

     Eu estou convencido que o futebol, inventado à revelia pelos brilhantes e reprimidos ingleses do período vitoriano, é uma das mais recorrentes metáforas da vida (e dos seus dilemas) tal como ela é idealizada entre nós. Nele, queremos o futebol "arte", o estilo dionisíaco de Gilberto Freyre e malandro — cheio de jogo de cintura, como mostrei faz tempo, mas exigimos "resultados" e "objetividade": no caso, muitos gols. Eis o dilema: como conciliar o belo com o técnico. Como ajudar o povo sem impedir que uma centralização neostalinista voltada para permanecer no poder produza fraudes, corrupção e impunidade? Como misturar um estilo de jogo personalístico, baseado na superexcelência de alguns craques que reinventam uma aristocracia no campo, com o jogo com e pelo time, que, como enfatizam os nossos teóricos do futebol, levam a uma identidade social especifica — essa marca das grandes seleções?

     Em outras palavras, como submeter todos a regra da lei e da coletividade (o time) se não dispensamos os salvadores da pátria, os messias do futebol — os que salvam os jogos dando a vitória ao nosso Brasil, gente como Ademir, Zizinho, Rivelino, Zico e tantos outros, para não mencionar a realeza do Príncipe Didi e do Rei Pelé ou o "fenômeno" que era o nosso Ronaldo?

     Eu me pergunto se essa busca da arte com (e não contra) a técnica; da justiça que vale para todos e leva à punição dos faltosos com a compaixão que distingue e perdoa; da lei universal que iguala com as amizades singulares que distinguem, não seriam as conjugações que implícita ou inconscientemente temos tentado declinar no Brasil. E se não é tempo de não tomar partido e saber de que lado nos situamos. Mas o que é que não cabe dentro de um sonho? E o futebol, como a poesia, é ótimo para sonhar e para revelar essa busca pelas causas perdidas. Ou para voltar ao começo, esse querer andar de carruagem em Manhattan.


    Fonte: O Globo

Comentários

Comente aqui este post!
Clique aqui!

 

Também recomendo

  •    “A compreensão do papel do ambiente na vida humana mostra que ele não apenas “cutuca ou sacode”, mas seleciona. Sua função é semelhante à da seleção natural, embora em uma escala temporal bem diferente... seu papel foi deixado de lado e é importante para uma análise consistente do comportamento.   (continua)


  •    Pistas não faltam: seja pelo jeito peculiar com que as famílias vão se transformando, seja pela rotina das cidades, a evolução dos gostos e preferências das sociedades, as apostas da ciência ou os caminhos abertos pela tecnologia, já é possível vislumbrar como será a vida de um cidadão daqui para a frente.   (continua)


  •    Nasce o ideal da nossa consciência da imperfeição da vida. Tantos, portanto, serão os ideais possíveis, quantos forem os modos por que é possível ter a vida por imperfeita. A cada modo de a ter por imperfeita corresponderá, por contraste e semelhança, um conceito de perfeição. É a esse conceito de perfeição que se dá o nome de ideal.   (continua)


  •    Elton Simões via blog do Noblat
       Não tenho o menor senso de direção. Faço parte daquele grupo de pessoas para as quais o deslocamento de um lugar a outro é sempre um desafio. O Norte parece sempre mudar de lugar. Estar pedido é não somente habitual, mas também um fato inevitável da vida.   (continua)


  •    Era o elemento que faltava para completar o pacote ecologicamente correto do estereótipo do povo de Seattle. Além de fazer reciclagem, comprar produtos orgânicos produzidos localmente e trocar o carro pelo transporte público, o típico morador de Seattle também simplifica a vida praticando o “downsizing”.   (continua)


  •    Étienne de La Boétie morreu aos 33 anos de idade, em 1563. Deixou sonetos, traduções de Xenofonte e Plutarco e o Discurso Sobre a Servidão Voluntária, o primeiro e um dos mais vibrantes hinos à liberdade dentre os que já se escreveram.  Toda a sua obra ficou como legado ao filósofo Montaigne (1533 – 1592), seu amigo pessoal que... (continua)


  •    É duro aceitar que algumas pessoas são mais capazes e mais afortunadas do que outras. Há muito suspeitava que um dia as mulheres mais bonitas iam ser de alguma forma castigadas por nossa sociedade. Meu temor, em parte, se confirmou. Incluindo aí também um castigo para os homens mais bonitos. E por quê?   (continua)


  •    Hoje voltou o frio. Veio como havia muito não vinha. Gelou o ar, esfriou o sofá da sala, resgatou meias, casacos e dores do fundo de uma gaveta que emperra como não quisesse abrir. Chegou sabe-se lá de onde, do pacífico, dos polos congelados, do sul do país. Não importa. Aqui faz frio. Em seu sopro fresco e úmido, esse frio há de aquecer os ímpetos de alguém.   (continua)


Copyright 2011-2022
Todos os direitos reservados

Até o momento,  1 visitas.
Desenvolvimento: Criação de Sites em Brasília