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O canivete - Wallace Rodrigues

Enviado por Marcella Valim
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    Meu maior defeito, nos despreocupados dias da infância, consistia em desanimar com demasiada facilidade, quando uma tarefa qualquer me parecia difícil. Eu podia ser tudo, menos um menino persistente.

     Foi quando, certa noite, meu pai me chamou para conversarmos. Tinha nas mãos uma tabuazinha de pequena espessura e um canivete aberto. Ele me disse quando me aproximei: - Meu filho, risque uma linha em toda a largura da tábua. Obedeci e, em seguida, tábua e canivete foram guardados na escrivaninha.

     A mesma coisa foi repetida todas as noites seguintes. Ao fim de uma semana eu não podia mais de curiosidade. A história continuava. Toda noite eu tinha que riscar com o canivete, uma só vez, o sulco que se aprofundava. Afinal chegou um dia em que não havia mais sulco. Meu derradeiro e leve esforço cortara a tábua em duas.

     Papai olhou longamente para mim e, depois, disse: -Você nunca acreditaria que isso fosse possível, com tão pouco esforço, não é verdade? Pois o êxito ou o fracasso de sua vida não depende tanto de quanta força você põe em uma tentativa, mas na persistência no que fizer. Foi essa uma lição-de-coisa impossível de esquecer e que mesmo um garoto de dez anos pode e soube aproveitar, não apenas na infância, mas durante toda a vida.

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