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Dai palavras a dor - Theófilo Silva

Enviado por Theófilo Silva
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     A cena final mais forte do teatro mundial é a do velho rei Lear entrando no palco com sua filha Cordélia morta nos braços, gritando: “Gemei, gemei, gemei, gemei! Oh! Sois homens de pedra! Se eu tivesse vossas línguas e vossos olhos. De tal modo os usaria que faria arrebentar à abóbada celeste. Ela foi embora para sempre! Conheço quando alguém está morto e quando está vivo. Ela está tão morta quanto a terra”. E, enlouquecido, quer se enganar: “Emprestem-me um espelho. Se a respiração dela embaçar ou manchar o vidro, então está viva”.  Enquanto todos choram ao redor, Lear, incapaz de suportar a dor, que o acabará matando, desesperado pergunta: “Por que um cavalo, um cão, um rato estão vivos, e tu sem um simples sopro qualquer? Não voltará nunca mais, nunca, nunca, nunca, nunca”. E desfalece em cima do corpo morto da filha!

     Ao tomar conhecimento da morte de Julieta, outro pai, o velho Capuleto, conta sua situação: “Desprezado, desolado, odiado, martirizado, morto! Tremendo instante! Por que vieste agora matar nossa solenidade? Minha filha, minha filha. Minha alma e não minha filha. Morta está! Ai, minha filha está morta e com minha filha estão enterradas todas as minhas alegrias!”.

     E Macduf, em Macbeth,  informado, por meio de enigmas, pois não quiseram dizer-lhe diretamente que sua mulher e filhos tinham sido assassinados, diz revoltado: “Como, o céu viu tudo sem tomar partido deles?”.  E, enfiando o chapéu entre as orelhas, choroso,diz:  “Eles eram o bem que eu tinha de mais precioso”. Ao que Malcolm responde: “Dai palavras à dor, a desgraça quando não fala, murmura no fundo do coração que não suporta mais, até que o parte”.

     Não sei se Shakespeare precisava enterrar um filho para escrever essas profundas e dolorosas sentenças. Mas ele também perdeu seu filho, Hamnet, de onze anos de idade. A dor foi tão forte, que ele escreveu sua imortal peça, Hamlet, logo após a perda.

     O que é que se pode dizer numa hora tão desesperada quanto essa?  O silêncio parece ser necessário, tão brutal é o impacto, o choque de uma desgraça como a de Santa Maria. Mas  é, como diz Shakespeare, necessário: “Dar palavras a dor”, para que ela não arrebente nossos corações. E mesmo que “arranjemos uma sombra desolada para chorar, até esvaziarmos nossos corações”, é preciso apontar os culpados. Porque nós sabemos de quem é a culpa desse crime descomunal que revolta todos que vivem debaixo do céu. Sabemos que por trás  dessa desgraça está “o jeitinho brasileiro”, a velha corrupção, o suborno, que “dá um jeito” para o que está errado, receba a chancela, a autorização, do Estado.

     Essas mortes são um assassinato cometido por todos os brasileiros que comungam do estilo desonesto de viver: dos parasitas que recebem altos salários do governo sem trabalhar; dos traficantes de influência; dos representantes do povo que desviam dinheiro público; dos recebedores de suborno; dos Renans Calheiros da vida, desses que representam o que de pior o serviço público brasileiro tem em seus quadros.

     Como aceitar que o Governo do Ceará pague 650 mil reais pelo show de Ivete Sangalo – uma espécie de macaca de auditório,  já que não a vejo cantando, e sim pulando como um símio no palco – para a inauguração de um hospital em Sobral, cidade natal e capitania hereditária dos Ferreira  Gomes?  Quando, dezesseis dias antes, a mesma figura, Ivete Sangalo, tinha recebido 850 mil reais para cantar no réveillon de Fortaleza? Isso, quando o estado do Ceará sofre com uma seca tão brutal quanto a de 1915. Lembram do romance  O Quinze, de Rachel de Queiroz?

     São essas coisas que representam o Beijo “Boate Kiss” da Morte que paralisou de dor o Brasil. O menos informado, até o mais intelectualizado, cidadão sabe que o que aconteceu em Santa Maria não foi uma infelicidade, uma fatalidade, mas uma tragédia com culpados. A culpa é coletiva, ocasionada pela cultura de um povo que não faz as coisas direito!

     Enterrar um filho  é,  como disse o pai de Julieta, “enterrar todas as suas alegrias”.

     E dando palavras a dor, devo dizer que,  nós,  brasileiros, na madrugada de domingo, dia 27 de janeiro de 2013, em Santa Maria, criamos o Dia da Infâmia! O dia em que todos os brasileiros devem sentir vergonha de serem brasileiros. O dia em que todos os corruptos brasileiros, públicos e privados, devem ser chamados de assassinos!

     Choro por ti, Santa Maria!

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