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O autoengano: as mentiras que nos sustentam - Gema Coelho

Enviado por Gilberto Godoy
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Você já parou para pensar no autoengano?

Todos nós estamos familiarizados, de uma forma ou de outra, com as mentiras.

Alguns são mais corajosos e admitem que são capazes de mentir, outros não admitem essa fraqueza.

Quem nunca contou uma mentira a si mesmo? Talvez nem tenha percebido que está mentindo… Vamos refletir sobre isso?

“A mentira mais comum é aquela com a qual um homem engana a si mesmo. Enganar os outros é um defeito relativamente saudável”.
-Nietzsche.
 

A mentira como companheira de vida

Os enganos e as mentiras são inerentes à vida em todos os seus aspectos.

Mesmo a natureza os usa como recurso. Os vírus, por exemplo, são capazes de enganar o nosso sistema imunológico para entrar em nosso corpo, para conseguir seu objetivo que é a sobrevivência.

Mas, o que dizer de nós?

Além das mentiras revestidas de alguma intenção para conseguirmos algo concreto, existem as mentiras que nos sustentam durante um certo tempo ou até mesmo pela vida toda. Inventamos essas mentiras para fugirmos da realidade, e preferimos a inconsciência.

Dostoievski escreveu em “Memórias do subsolo”:

“Todo ser humano tem algumas memórias que contaria somente aos seus melhores amigos. Da mesma forma, podemos dizer que todo ser humano tem preocupações que não contaria nem aos seus melhores amigos, mas apenas a si mesmo e, mesmo assim, no maior segredo. Mas existem coisas que as pessoas não se atrevem a contar nem para si mesmas. Mesmo os homens mais honestos têm uma grande quantidade desses pensamentos guardados em algum lugar da sua mente”.
 

Ninguém está livre do autoengano

Além da consciência, a linguagem é muito importante no autoengano.

Embora a realidade não deixe de ser o que é, cada um constrói a sua. É através da linguagem que transmitimos e descrevemos a nossa realidade. Para nós, a realidade é um reflexo de como a interpretamos.

As pessoas têm uma grande capacidade de criar crenças tendenciosas e histórias em todos os aspectos da vida. Quem consegue se livrar das suposições e confabulações?

Somos vítimas das nossas próprias armadilhas para sobreviver em nosso dia a dia.
 

Mentiras para fugir da realidade

Existe uma rede de mentiras que nos sustentam e que muitas vezes são as algemas que nos prendem a determinadas situações sem que percebamos. Por isso, temos a sensação de que não importa o que façamos, não conseguimos seguir em frente.

“A verdade tem a estrutura da ficção”.
-Jacques Lacan-

Quando a força dos fatos se torna ameaçadora, por vezes, o medo do sofrimento nos faz tentar fugir da realidade, bloqueando a nossa atenção e nos enganando. Por isso, preenchemos os espaços vazios com explicações imaginárias ou fantasiosas, de maneira automática. Diz o ditado popular: “o que os olhos não veem, o coração não sente”.

Dessa forma, se eu não vejo, se não percebo o que está acontecendo, o perigo e a ansiedade diminuem e eu consigo seguir em frente.

Os fatos foram ignorados e modificaram o significado da experiência. A mentira está presente, sem que percebamos, oculta atrás dos silêncios, das justificativas, das negações e dos castelos de areia.

A mentira se mantém pelo poder da nossa atenção seletiva para esconder e modificar as verdades dolorosas, criando uma realidade mais aceitável para nós.

Um disfarce que nos recorda o “falso self” de Winnicott, onde a mentira é considerada parte do desenvolvimento natural da identidade do ser humano, desde a primeira infância.

Isto atenua a angústia e o sofrimento gerados pelas expectativas que os pais colocam nos filhos; eles renegam a si mesmos e constroem um personagem de acordo com o ideal que os seus pais criaram.
 

O autoengano no dia a dia

O autoengano pode ser gerado para satisfazer as nossas próprias expectativas ou as dos outros; ou como uma forma de justificarmos que não queremos ver a realidade como ela é.

Isso pode acontecer nos relacionamentos de casal quando, por exemplo, não nos damos conta de que a situação está insustentável e de que os nossos sentimentos mudaram.

Pode acontecer também, nos casos de dependência química, quando a pessoa acredita que pode controlar o seu consumo; nas relações sociais e políticas…

O autoengano é uma importante defesa contra as ameaças de perigo, que se destaca como uma armadura que nos protege das experiências difíceis de assimilar, uma couraça do caráter como dizia Willhelm Reich.

Um escudo atrás do qual o “eu” se esconde, utilizado para proteger-se da ansiedade de viver em um mundo considerado hostil.

Então, quanto melhor enganarmos a nós mesmos, melhor enganaremos os outros. A melhor maneira de esconder uma decepção profunda é não estar ciente dela.
 

Os efeitos do autoengano

O autoengano pode ter muitos aspectos e, por vezes, um custo muito elevado. Nestes casos, o mundo da pessoa está fragmentado e a informação ignorada está no seu inconsciente, escondida pela mentira da consciência.

Assim, como Daniel Goleman afirma em seu livro “O ponto cego”, o primeiro passo para despertar do autoengano é perceber de que forma estamos “dormindo”.

Ou seja, em primeiro lugar, considerar a possibilidade de que estamos nos enganando em algum aspecto da nossa vida e, em seguida, entrarmos nessa teia de aranha que nós mesmos construímos para fugir da realidade.

Muitas vezes não percebemos o que nos desagrada e também não percebemos que não percebemos nada…

A maioria de nós fez um pacto, sem saber, com este velho provérbio árabe:

“Não desperte o escravo porque talvez ele esteja sonhando que é livre”. Mas, o sábio dirá: “Desperte o escravo! Especialmente se sonha com a liberdade. Se despertar e perceber que ainda é um escravo, talvez possa se libertar”.


     Fonte: amenteemaravilhosa.com.br

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