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Aonde vai parar o trânsito?

Enviado por Gilberto Godoy
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     Quanto você gasta por mês com o seu carro? Seja nas parcelas do financiamento, IPVA, seguro, combustível e manutenção, ou ainda nas horas parado no congestionamento, procurando vagas no estacionamento ou calibrando os pneus, o fato é que destinamos boa parte do nosso tempo e dinheiro no que deveria ser apenas um meio de deslocamento entre um local e outro.

     Diversos fatores históricos, sociais e econômicos fizeram com que o carro deixasse de ser apenas um veículo para se tornar um símbolo da sociedade atual, onde a valorização dos bens materiais é mais importante que o respeito ao próximo e as questões individuais se sobrepõe ao bem coletivo. Essa inversão de valores é uma das grandes responsáveis pelos problemas encontrados no trânsito das grandes cidades, afirma a professora Gislene Macedo, do curso de psicologia da UFC/Sobral, doutora em psicologia do trânsito e ex-membro titular da Câmara Temática de Educação e Cidadania do Contran.

     “Invertemos o valor do coletivo para o individual, o que causa um problema para todos já que, à medida que você investe mais em um, você deixa de investir no outro”, diz. Esse é apenas um dos fatores que transformou um simples meio de transporte em objeto de desejo e símbolo de valores mais profundos que a mera mobilidade.

     Quem reforça essa perspectiva é o antropólogo Roberto Da Matta. Em entrevista à Revista Trip, ele justificou o comportamento dos brasileiros no trânsito com a incapacidade de sermos uma sociedade igualitária. Para ele, as pessoas não instituem a igualdade como um guia para as suas condutas, o que leva a um pensamento aristocrático de que uns podem mais do que outros. “É doentio, desumano e vergonhoso notar que 40 mil pessoas morrem por ano no trânsito de um país que se acredita cordial, hospitaleiro e carnavalesco. No Brasil, você se sente superior ao pedestre porque tem um carro. Ou superior a outro motorista porque tem um carro mais moderno ou mais caro” - Roberto Da Matta.

     A conselheira do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Andréa Nascimento, lembra ainda que o modelo de vida e de mobilidade existente hoje inclui o carro na rotina das pessoas, que o levam como parte essencial do dia a dia. “Nele deixo livros, roupas, sapatos, escolho a quem dou carona, coloco som no volume que eu quiser, disputo o espaço público, pois quero fluidez”, afirma em entrevista concedida a Perkons.

     A raiz do problema, segundo Da Matta, está na ascensão da indústria automobilística nos anos 50. “Isso criou o delírio de que ser dono de um carro é o coroamento do sucesso individual. E até hoje, mesmo com o mundo em colapso, não conseguimos nos livrar dessa mentalidade. Quando nós adotamos o transporte individual, estamos retomando a ideia da cadeirinha carregada por escravos do Brasil colonial”, relembra o antropólogo.

Consequências

     Segundo levantamento do Ministério das Cidades e do Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN), em abril de 2010 o país já contava com uma frota de mais de 60 milhões de veículo automotores, sendo 35 milhões automóveis (57% do total) e 12 milhões de motocicletas (21%), enquanto que a frota de ônibus era de pouco mais de 430 mil unidades (0,7%). Para Gislene, essa vitória dos carros e motos sobre os transportes coletivos deve ser comemorada apenas pelo setor automotivo. “Existe uma manutenção da indústria automotiva para manter essa cultura na sociedade. Eles comemoram e enquanto alguém ganha muito dinheiro, muitos perdem suas vidas”, diz.

     Outras consequências deste fenômeno são vistas no aumento dos engarrafamentos, na maior poluição do ar, na desvalorização do transporte coletivo, na dificuldade em organizar o trânsito e no avanço do número e da gravidade dos acidentes, “o que é ainda pior”, garante a psicóloga. Ela lembra que a média de ocupação dos veículos em cidades como São Paulo é de 1,5 passageiros por carro. Além dos problemas já citados, esse fenômeno leva a outras consequências sociais, como a solidão e o distanciamento. “Fecha-se o vidro, coloca-se o fumê, cria-se um isolamento e sua relação com o que esta fora daquele universo é cada vez menor. É uma pena que as pessoas estejam escolhendo essa opção”, opina.

Fonte: Clara Corrêa / Ecodsesenvolvimento / CFP

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