Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns minutos...

 

Trecho de 'Filosofia da Ciência', de Rubem Alves

Enviado por Gilberto Godoy
trecho-de--filosofia-da-ciencia---de-rubem-alves

     "Esse espanto perante a ordem é a primeira inspiração da ciência. Quando um cientista enuncia uma lei ou uma teoria, ele está contando como se processa a ordem, está oferecendo um modelo de ordem. Agora ele poderá prever como a natureza vai se comportar no futuro. É isto que significa testar uma teoria: ver se, no futuro, ela se comporta da forma como o modelo previu. 

     Você conseguiu descobrir alguma ordem em meio aos absurdos aparentes? Veja: nada está solto. As coisas são nos céus como são no homem. Tudo é um cosmos, ordem. Microcosmos e macrocosmos estão ligados por relações de analogia. O homem é o microcosmos. Modelo do universo, próximo de todos, visível, conhecido. Baseado em uma visão da ordem do universo, ele enuncia suas conclusões: "O número dos planetas é necessariamente, sete". Não seja injusto para com o autor. Numa época em que os instrumentos para o teste de hipóteses eram raros, é compreensível que lhe sobrasse a imaginação. Nossos textos de ciência, no futuro, serão provavelmente citados como superstições primitivas. 

     A magia dos azande de forma idêntica, se constrói sobre uma visão de natureza como uma ordem em que as coisas estão integradas e nada acontece por acaso. Tudo se encaixa perfeitamente. 

     E na ordem natural não existe lugar para a enfermidade. Como pode a ordem gerar a desordem? O indesejável, o não-previsto, o maléfico só podem ser produtos de um fator estranho a essa mesma ordem, a feitiçaria. Você não concordaria que dada a premissa dos azande sobre a ordem da natureza, suas conclusões sobre a feitiçaria se seguem de forma necessária? 

     E o quebra-cabeça? 

     Frequentemente os alunos respondem que irão encaixar as peças umas nas outras até dar certo. Mas não é verdade. Ninguém procede assim. Isso pode funcionar se o quebra-cabeças tiver dez peças. Mas se tiver mil? Tal procedimento violenta tanto o senso comum como a ciência. Ele não faz uso de um modelo. Como procedemos? Partimos de um pressuposto: deve haver uma ordem no quebra-cabeça. Ele deve formar um padrão conhecido: paisagem, mapa, texto, rosto. Basta dar uma olhadela nas peças para fazer uma hipótese (palpite) acerca do modelo. Letras? Texto. Uma boa técnica aqui será separar as peças com letras maiúsculas. Elas indicam inícios. Cores variadas? Talvez uma paisagem. E numa paisagem as cores não aparecem embaralhadas. Os verdes estão juntos (pastagens, árvores). Também os azuis (céu, mar). Em qualquer dos casos, você separará as peças com os lados retos. Elas formam os limites do quebra-cabeça e indicarão onde as outras deverão se encaixar. 

     Procedemos de forma ordenada porque pressupomos que haja ordem. Sem ordem não há problema a ser resolvido. Porque o problema é exatamente, construir uma ordem ainda invisível de uma desordem visível e imediata.

Comentários

Comente aqui este post!
Clique aqui!

 

Também recomendo

  •    Ainda que uma lista de "melhores" em qualquer coisa sempre termine em polêmica, talvez ditos questionamentos seriam menores se a lista fosse realizada por pessoas experimentadas no tema ou no mínimo com um grau aceitável de conhecimento sobre o mesmo. E em literatura, talvez poucas pessoas sejam tão apropriadas para opinar sobre o assunto...   (continua)


  •    Em outro capítulo falei de Adolpho Bloch, não o atual, o milionário de Manchete. Não. O fundador de um império grá­fico interessa menos. O grande Adolpho é o de Pereira Nunes, de pé descalço e calça furada. Era menino e passava fome. Ho­je, ele muda de automóvel como de camisa. Todo o dia sai com um carro novo. E aqui está o suave milagre: ...   (continua)


  •    Conhecida como 'A Nostradamus do Marketing', a nova-iorquina Faith Popcorn analisa neste livro o comportamento do consumidor e suas influências no mercado de consumo. Especialista em fazer previsões de marketing, Popcorn, através de pesquisas permanentes, consegue prever tendências de comportamento, produtos que podem virar sucesso, e como as empresas devem se comportar no mercado.   (continua)


  •    Seis escritorores consagrados que não enxergavam direito: 1)Homero
       O autor grego dos poemas épicos Ilíada e Odisseia é muito controverso. Nem mesmo o século de seu nascimento é muito preciso. O século 8 a.C. é conhecido como a “data de Homero”, a época em que supostamente os poemas...   (continua)


  •    Sapiens fez 10 anos em 2022 e é um livro impactante. De fato, questiona nossas ideias preconcebidas a respeito do universo. Um relato eletrizante sobre a aventura de nossa extraordinária espécie – de primatas insignificantes a senhores do mundo. O que possibilitou ao Homo sapiens dominar as demais espécies?   (continua)


  •    O site espanhol Que Leer disponibilizou uma matéria associando os principais livros lançados entre 1911 e 1999 à suas respectivas datas de publicação. Como a internet faz estas matérias viajarem sem fronteiras, o Homo Literatus traz a lista de títulos já lançados no Brasil, em português e poucos ainda não...   (continua)


  •    "Raimund Gregorius é um homem culto, professor de línguas clássicas. Um dia se levanta durante uma aula e sai da sala. Assustado com a súbita consciência do tempo que se esvai, deixa para trás sua rotina bem organizada e pega o trem noturno para Lisboa. Na bagagem, leva um livro do português...   (continua)


  •    Os 100 melhores livros da literatura mundial, em todos os gêneros e de todos os tempos. As obras foram escolhidas a partir da importância para a humanidade e para a literatura mundial. Muitas, de semelhante valor literário e histórico, foram deixadas de lado neste momento mas serão contempladas...   (continua)


Copyright 2011-2026
Todos os direitos reservados

Até o momento,  1 visitas.
Desenvolvimento: Criação de Sites em Brasília