Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns minutos...

 

Os Domingos - Paulo Mendes Campos

Enviado por Gilberto Godoy
os-domingos---paulo-mendes-campos

"Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde - lembro - uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo - lembro - era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho."

 

     Paulo Mendes Campos (Belo Horizonte, 28 de fevereiro de 1922 - Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991) - Além de poeta, foi cronista, jornalista e tradutor. Publicou em poesia: 'A Palavra Escrita', 'Testamento do Brasil' e 'O Domingo Azul do Mar'. Destacou-se nas crônicas, que, ao lado de Rubem Braga, Fernando Sabino e outros, mudaram a maneira de fazer crônicas no Brasil. Diversos livros com reuniões de suas crônicas como 'O Cego de Ipanema', 'Os bares morrem numa quarta feira', foram republicados.

Comentários

Comente aqui este post!
Clique aqui!

 

Também recomendo

  • “Quem bate à minha porta não me busca.
    Procura sempre aquele que não sou
    e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
    é meu sósia ou meu clone, em mim oculto...
    (continua)


  •      "A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
         Quando se vê, já são seis horas!
         Quando de vê, já é sexta-feira!
         Quando se vê, já é natal...
         Quando se vê, já terminou o ano...
             (continua)


  • O meu olhar é nítido como um girassol.
    Tenho o costume de andar pelas estradas
    Olhando para a direita e para a esquerda,
    E de vez em quando olhando para trás...

    (continua)


  • Senhor, fazei com que eu aceite
    minha pobreza tal como sempre foi.
    Que não sinta o que não tenho.
    Não lamente o que podia ter
    e se perdeu por caminhos errados
    e nunca mais voltou.
    (continua)


  • - O tempo é um ponto de vista dos relógios.
    - A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta.
    - Se a casa é para morar, por que a porta da casa se chama porta da rua?
    - A esperança é um urubu pintado de verde. O vento assovia de frio.   (continua)


  • Aprende - lê nos olhos,
    lê nos olhos - aprende
    a ler jornais, aprende:
    a verdade pensa
    com tua cabeça.

    (continua)


  • "Amanhecemos com os olhos no amanhã
    E o dia é hoje ...
    Anoitecemos com os sonhos de ontem
    E a noite é hoje ...
    E de tanta falta de sintonia
    De tanta busca e farta agonia..."
    (continua)


  •      Uma homenagem a Marília Pêra, uma mulher que fez a diferença!

    "Que pode uma criatura senão,
    entre criaturas, amar?
    amar e esquecer, amar e malamar,
    amar, desamar, amar?
    (continua)


  • "De almas sinceras a união sincera
    Nada há que impeça: amor não é amor
    Se quando encontra obstáculos se altera,
    Ou se vacila ao mínimo temor.
    Amor é um marco eterno, dominante,
    ​(continua)


  •    Orfeu da Conceição - Peça teatral escrita por Vinicius de Moraes em 1954, baseada no drama da mitologia grega de Orfeu e Eurídice. A trilha sonora da peça foi lançada em vinil no ano de 1956, pela Odeon, com música escrita por Antônio Carlos Jobim e letra de Vinicius. Voz de Maria Bethânia.


  •    Publicamos ontem os 20 melhores poemas do século XX de acordo com este blog. Neste post os 80 poemas restantes para a lista dos 100 melhores do século XX.
      21º Jubileu, de Vladímir Maiakóvski (1893-1930) – Nascido na Geórgia, Maiakóvski foi um entusiasta da Revolução Russa, enfrentando o desafio de...  (contnua)


  •    São muitas as listas e a controvérsia é grande quanto aos melhores poemas do século XX. Este blog fica com a listagem a seguir:
      1º Tabacaria, de Fernando Pessoa (1888-1935), sob o heterônimo de Álvaro de Campos – O poeta português é autor da mais original criação poética deste século...  (continua)


Copyright 2011-2021
Todos os direitos reservados

Até o momento,  1 visitas.
Desenvolvimento: Criação de Sites em Brasília